Ela cresceu achando-se feia. Gordinha, usava óculos (segundo seu irmão, "fundo de garrafa") e, ainda por cima, não conseguia dar um jeito no cabelo – às vezes meio crespo, outras meio liso, desidratado, sem corte definido... Enfim, uma tristeza.
E, a la Herbert Viana, achava que os meninos de Goiânia não olhavam pra ela em razão dos referidos atributos (e o pior - quer dizer, o melhor - é que olhavam. No fundo, era tudo exagero de adolescente. Mas voltemos à história...)
O cabelo era o que mais a incomodava. Ela queria ter cabelos bonitos, longos, lisos, esvoaçantes, quase como se possuísse um ventilador próprio, que a antecedesse por onde quer que fosse. As outras coisas eram simplesmente detalhes, facilmente solucionáveis com um regime e um par de lentes, mas... o cabelo parecia não ter solução.
O grande problema é que não encontrava ninguém que soubesse orientá-la adequadamente, nenhum cabeleireiro sábio que a libertasse do que ela achava ser a raiz de todos os seus males. E, nesse caso, cortar o mal pela raiz era a pior coisa a se fazer: cabelo curto certamente seria ainda pior.
Muitos desavisados quiseram essa opção, e a menina da nossa história, já bem mais magra e usando lentes de contato, continuava se achando feia a cada novo corte. A impressão que se tinha é que havia um complô cósmico de todos os cabeleireiros da Terra a impedindo de se sentir bonita.
Foi quando finalmente, dotada de um pouco mais de recursos e personalidade, ela conheceu a “escova progressiva”, os xampus importados e o secador de 2000w com íons, e impôs com firmeza sua decisão de não cortar os cabelos acima dos ombros.
Ah, a nossa menina nunca mais foi a mesma... Agora, com seus cabelos longos, hidratados, brilhantes, que voam com o vento, num balanço harmonioso com seu caminhar, e livres dos elásticos e liguinhas, ela se sente linda como a própria Gisele Bünchen (e cada dia mais loira também).
Mas..., como diz a minha avó, não há de ver que o complô cósmico continua? Faz 2 anos que a nossa amiga consegue se libertar, com muita dificuldade, dos seus algozes de egos inflados que querem diminuir ferozmente o comprimento de suas madeixas, sempre com o argumento da necessidade da "mudança radical", como se o caos pudesse trazer algo de bom.
E a pergunta que fica é a seguinte: será que eles também querem cortar o cabelo da Gisele?
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