segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cada um à sua maneira

É engraçado - ou seria melhor dizer estranho? - ver a reação e o comportamento de cada pessoa quando conto que estou com depressão. A grande maioria fica sem entender. Como assim? Depressão? É como se dissessem: você parece tão feliz, alegre! Você não tem nenhum problema na sua vida! Por que depressão?

De fato, eu sou feliz e alegre, e não tenho nenhum problema na vida. Já disse isso por aqui antes. É lógico que enfrento dissabores e contrariedades na minha vida, como dizia a minha avó (só  um aparte: como tenho lembrado deles nesses últimos dias! Acho que eu queria ir pra casa deles, sentar ao lado do meu avô no sofá e assistir um filme qualquer... Comer um biscoito de queijo e tomar um café...).

Mas voltando... São muitas contrariedades. A maior de todas, apesar de ser grata pela simples existência dela, é a minha ajudante de casa. Ela não faz nada do jeito que eu quero. A casa está sempre desorganizada. Por mais que eu a ensine, ela nunca guarda a roupa de cama do jeito certo. Está sempre pegando jogos de toalha trocados. Tudo depende de mim. Eu tenho que fazer, organizar, colocar ordem. E isso me cansa. Mas o pior dela mesmo é o mau humor. Ela está sempre de cara ruim, sempre insatisfeita com a vida. Não responde meu bom dia. E fica me olhando com cara de "lá vem essa chata de novo" a cada vez que eu vou dar alguma instrução pra ela...

Meu maior sonho é uma ajudante simpática, de bem com a vida, especialista em organização de armários e que cozinhe bem. Se não for boa na limpeza e pra passar roupa, eu contrato uma faxineira e uma passadeira à parte. 75% dos meus problemas estariam resolvidos. Sei que logo eu arrumaria outros pra ocupar o lugar desses, mas pelo menos por um tempo eu teria apenas 25% de problema na minha vida...

E outras contrariedades do dia a dia... O estagiário chato e arrogante, que acha que eu não sei de nada (e não sei mesmo!). O ambiente do meu trabalho, com todos insatisfeitos por estarem sem reajuste salarial há 9 anos e com a política de desvalorização dos servidores adotada pelos próprios procuradores, com raras, quer dizer, raríssimas exceções.

A dificuldade em pastorear meus filhos e estar presente na vida deles. E ser exemplo para a vida deles. E ensiná-los a cada dia.

Mas também são muitas alegrias. Meu marido. Meus filhos. Minha família. Meus amigos. Ter certeza que Deus me ama. Os bebês do berçário. Os sorrisos e os abraços que eles me dão renovam minha alegria. É quase como se Deus estivesse me dizendo: Tá vendo? Você é importante aqui. Você é instrumento nas minhas mãos para ensinar de mim a esses bebês.

As alegrias são maiores, muito maiores que as contrariedades, tristezas e frustrações. Então, por que a depressão?

Bom, se eu não estivesse com tantos sintomas de depressão, eu também não acreditaria. Aliás, acho que ainda não aceitei completamente o diagnóstico. Mas os sintomas estão aí: choro fácil, dificuldade de concentração, ganho de peso, distúrbio de sono, falta de vontade de sair de casa, sem sentir prazer nas coisas que gosto de fazer...

E eu me desviei completamente do assunto do início do post...

Era pra falar da reação das pessoas. Então... Uns ficam sem entender, mas oferecem sua solidariedade; e outros simplesmente ignoram meu problema. Ignoram solenemente. Fingem nem saber. Confesso que não sei se acho bom ou ruim. Às vezes é bom que não confrontem nossa dor. Parece ser mais confortável assim. Por outro lado, por serem pessoas importantes na minha vida, eu acho que gostaria de compartilhar com elas o que estou sentindo. Mas preciso de abertura pra fazer isso. Não consigo criar a situação... Toda situação que eu penso em aproveitar, até elaboro o diálogo na minha cabeça, não acontece! E eu continuo no meu silêncio e a pessoa no dela...

Mas o pior mesmo foi o que ouvi ontem.

O "pedido de oração fofoca" por mim deve ter sido mencionado em alguma reunião da igreja. Duas pessoas que não são íntimas minhas vieram falar comigo. A primeira foi "de boa". Apenas perguntou se eu estava melhor de saúde e eu respondi o meu já tradicional: "Estou melhor, obrigada!", com o clássico sorriso sem graça estampado no rosto.

A segunda foi uma pessoa que me pediu, já faz um bom tempo, uma encomenda de scrap, que eu ainda não consegui fazer por motivos que não vou repetir. Ela falou assim: "E aí? Já conseguiu fazer minha encomenda? Aproveita suas férias!"

Oi?? Férias?? Eu ouvi isso mesmo??

Quem me dera eu estivesse de férias... Poderia descansar, viajar, curtir a vida, ler meus livros e fazer meus scraps, inclusive aqueles que pessoas chatas me pedem.

Doeu. Doeu porque eu não estou assim porque quero. Eu não pedi para estar de licença. Não são férias. Foi recomendação médica. E eu tenho certeza que ele tinha bons motivos para me conceder essa licença. Ou agora se pressupõe que médicos são levianos e irresponsáveis e afastam pessoas do trabalho sem razão?

Doeu porque também eu me senti uma irresponsável aproveitadora, que em vez de trabalhar fica inventando doença pra curtir férias prolongadas.

No entanto, eu não quero ficar com raiva nem chateada com essas pessoas. São ignorantes, que não sabem de nada. Não sabem o que eu sinto e não sabem o que é ter uma depressão. Cada um tem seu jeito de enfrentar os próprios problemas e também de ignorar ou de massacrar os problemas dos outros.

E eu não vou deixar me afetar por nenhum deles.

Um comentário:

lili disse...

Despede JÁ essa empregada incompetente e mau humorada. Fiz isso a exatamente 1 mês e minha vida melhorou muito. Sabe quando você abre uma janela e deixa o sol entrar?