*Texto escrito pela jornalista Mariliz Pereira Jorge e publicado no site da Folha de São Paulo (http://app.folha.uol.com.br/#noticia/578392). Não resisti ao compartilhamento. Ele traduz muito do que tenho sentido. Espero que, assim como a autora do texto, eu logo possa sair dessa crise também e começar a prestar mais atenção ao que acontece comigo, para não ficar como estou agora...
Cheguei da academia, tomei banho e sentei no sofá. Senti um cansaço
estranho. Pensei que pudesse ter exagerado nos exercícios, em minha
décima tentativa de deixar a vida sedentária de lado. Falei para o meu
marido que iria deitar um pouco. Na cama, comecei a sentir o coração
acelerar ainda mais, um suor frio, que eu achei que era só a noite
quente misturada com o metabolismo ainda acelerado.
Tentei controlar a respiração, daquele jeito que fazemos, depois de um
esforço muito grande, para que os batimentos se acalmem. Então, tudo
aconteceu muito rápido. Comecei a tremer descontroladamente, as mãos
ficaram dormentes, perdi o fôlego, a barriga e o peito doíam. Achei que
iria morrer.
Senti um desespero enorme. Fui para o pronto-socorro. Quinze por nove,
disse o enfermeiro sobre a minha pressão. Morte na certa. Minha pressão
sempre foi baixa, nunca passou dos 11. Se estava nos 15 tinha alguma
coisa errada. Era morte na certa. E eu pedi para não me deixarem morrer,
ao mesmo tempo que chorava e tentava respirar.
Não deu nada no eletro. Quando a médica entrou na sala, com aquela boa
vontade típica de quem está num plantão, mas preferia estar em casa
comendo miojo, tudo parecia mais calmo. Não sabia se me sentia melhor
porque estava melhor ou porque estava dentro de um hospital. Me deram
uma dose de ansiolítico. A médica queria saber se eu tinha me
aborrecido, discutido com alguém. Nada. Meu dia tinha sido tranquilo,
sem altos nem baixos.
Ela refez meus exames. O coração estava ótimo. A pressão de volta ao
normal. E a sensação de morte tinha ido embora. A médica quis saber se
eu tinha algum psiquiatra. Não, não tenho. Melhor procurar um porque
você teve uma crise de síndrome do pânico. Assim, como quem diz que meu
problema era gases. Acho que não desmaiei porque estava dopada.
Passei dois dias em casa chorando. Fui diagnosticada com depressão leve e síndrome do pânico.
Os meus familiares mais próximos sabem. Contei também para os amigos.
Preferi que eles soubessem de cara porque eu mesma não sabia com o que
estava lidando. Ainda não sei a profundidade de tudo, ainda que tudo
esteja sob controle.
Eu poderia guardar essa história e dar o caso como encerrado, mas na
semana passada vi um post no Facebook de uma pessoa aparentemente
esclarecida que dizia o seguinte: o único antidepressivo que realmente
funciona é mexer de verdade na sua vida, e/ou no modo como você lida com
ela. O resto é doping.
Doeu. Muito. Tive vontade de chorar. De raiva. Doeu por mim e pelas
pessoas que tem que lidar com a doença e com o preconceito que existe em
torno dela. Frescura, dizem.
Lembrei de como cheguei no hospital achando que iria morrer. Lembrei de
outras duas crises que tive. Uma dentro de um bar, de onde fui tirada às
pressas, para virar umas gotas de ansiolítico no meio da rua, antes de
entrar num táxi, enquanto tremia, suava e chorava, compulsivamente.
Outra no saguão de um aeroporto, onde tive que me trancar dentro da
cabine do banheiro e deitar no chão esperando que o remédio fizesse
efeito, sentindo o chão frio e sujo confortarem meu rosto suado.
Ninguém pede para ter depressão. Ninguém escolhe que a tristeza paralise
sua vida. Eu sempre entendi dessa forma, mas como a maioria das pessoas
achava que é o tipo de coisa que só acontece com os outros. Acreditava
que gente feliz e de bem com a vida são imunes.
Descobri que não são. Eu sou feliz, minha vida é boa. Como a maioria,
tenho dias melhores, outros piores. Tenho frustrações profissionais,
discuto com o meu marido, me decepciono com pessoas, tenho vontade de
esganar o pedreiro. Como todo mundo.
Mas sou do tipo que acha que nunca vai chover, que sempre vai dar tempo,
que tudo vai dar certo, que vale a pena fazer as pazes. Para mim o copo
sempre está meio cheio. Foi difícil entender e aceitar que tenho uma
doença que precisa ser cuidada o resto da vida.
Uma das coisas que mais me assustaram nesse post nem foi o post em si.
Um imbecil falando bobagem é só um imbecil falando bobagem. Fiquei
abismada com a quantidades de likes que ele recebeu. Uma quantidade
enorme de gente que deve achar que depressão é frescura. Que basta
vontade para que ela seja resolvida.
Apenas vontade não faz efeito na maioria dos casos.
Entendo que haja um exagero no uso de ansiolíticos e antidepressivos.
Qualquer tristezazinha tem sido tratada com tarjas vermelha e preta. Mas
quem sou eu para medir o tamanho da tristeza de uma pessoa ou a falta
de habilidade dela para lidar com suas tristezas?
Tomei dois tipos de remédios durante seis meses. Um para acordar, um
para dormir. Além do famoso ansiolítico para emergências, que eu só
tomei nas pouquíssimas emergências. Depois desse período fiz o desmame,
fui parando de tomar aos poucos, tudo com supervisão médica. Tive alta
do psiquiatra, mas vez ou outra nos falamos e ele está sempre
disponível, caso eu precise. O ansiolítico não sai da bolsa. Talvez não
saia nunca mais. Não uso, só preciso saber que está ali ao meu alcance.
Sim, eu fiz a minha parte. Reagi. Tem gente que não consegue. Mesmo com a
doença, sou mais positiva, otimista e alegre do que muita gente com
quem convivo. Mas é a minha essência. Sou uma pessoa alegre. Tive o
apoio e o amor do meu marido, da minha família e de amigos queridos. Tem
gente que não tem nada disso. Tem gente que é naturalmente menos alegre
e tem mais dificuldade para lidar com essa situação.
Me sinto como um ex-alcoólatra. Estou ótima, mas não posso me descuidar.
Presto atenção em mim mesma. Sei que tristezas, decepções e frustrações
fazem parte da vida e que depende de mim a forma como lido e encaro
tudo. Mas de um ponto em diante os remédios foram essenciais. Me
ajudaram a levantar durantes várias semanas em que eu estava sob
tratamento. Me ajudaram a encontrar equilíbrio para que eu conseguisse
buscar as minhas próprias forças para sair do buraco. Espero não
precisar mais deles, mas fico aliviada de saber que eles existem.
Dizer que "o único antidepressivo que realmente funciona é mexer na sua
vida, e/ou no modo como você lida com ela, e que o resto é doping" é de
uma leviandade, maldade e ignorância enormes.
Cada um sabe onde seu calo aperta. Cada um sabe como lida com seus
tombos. É uma injustiça julgar as pessoas dessa forma. É claro que é
melhor ser alegre do que ser triste. Mas em muitos casos não é só uma
questão de escolha ou de vontade.
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